
O despertador tocou, mas Nuray já estava acordada, não havia dormido e a noite fora longa, com ela ouvindo cada movimento da rua. Não fora fácil fingir, mas conseguira e com sucesso. Essa era a única certeza que tinha, assim como podia sentir a presença de Alev ao seu lado na cama, que não acordou com o som do relógio barulhento. O homem dormia o sono dos anjos, mas na realidade ele era bem o contrário.
Nuray se lembrou da noite anterior, foi como todas as outras, quando conversaram trivialidades, falaram de seus trabalhos, jantaram e foram para frente da TV, mas sem prestarem atenção no conteúdo, pois estavam atentos ao aparelho de celular.
E Nuray tentando ser o mais fria possível para não revelar o que já sabia. Lembrou dele dizendo desejar fazer amor aquela noite e ela simplesmente respondeu estar com dor de cabeça, entretanto, na hora, recordou que Alev sempre dizia: a desculpa clássica de todas as mulheres. Foi quando complementou que também não estava com vontade.
A franqueza dela ao dizer isto surpreendeu Alev, pois ela sempre fora solícita, nunca aumentava o tom de voz, como diriam muitos, ela era um doce de pessoa e meiga. Qualidades que definitivamente não a representavam no momento. O marido perguntou o que estava acontecendo e Nuray disse estar preocupada com o trabalho. Ele aceitou a desculpa e foi dormir.
Sozinha, pegou o celular e começou a navegar pela sua rede social, quando percebeu a solicitação de uma amizade, que um dia havia sido mais do que isso – Baki.
Suas mãos suaram, o coração acelerou. O que ele poderia querer após tantos anos? Não foi um término amigável. Havia sido intenso desde o início, um encontro virtual promovido, pela então amiga Ceren. Do virtual ao real não demorou muito.
Baki tinha 38 anos quando o conheceu, era alto, em torno de 1,80, muito cuidadoso com a aparência, não era o belo nos padrões de muitos, mas sabia cativar suas conquistas e, para Nuray a sua beleza vinha do interior dele. Ele já tinha 54, mas será que continuava do mesmo jeito? Afinal, afinal passaram-se 16 anos, mas ela sentia como se tivesse sido no dia anterior, que haviam brigado e terminado o relacionamento de um ano. Meses depois, conheceu Alev, completamente diferente de Baki, por quem ainda sofria. E, como ela sempre repetia, ela e o marido foram a âncora um do outro. Construíram uma vida, a qual ela tinha receio de perder agora, em razão da traição dele.
Mesmo morando na mesma cidade, Nuray e Baki nunca mais se viram, nunca mais se falaram e neste exato momento ali estava ele solicitando sua amizade em uma rede social.
Lembrou-se da sua professora Kerime. Se contasse o que estava acontecendo, ela diria: o desconhecido gerou esse encantamento e magia em você para poder tentar e compreender o seu antigo amor. Ela era bem mais nova que Nuray, que a admirava imensamente por sua sabedoria, apesar da pouca idade. Devia ser porque Kertime tinha fome de conhecimento, lia muito, estudava bastante.
O problema era que, mais uma vez, sua criação judaico-cristã colocava em xeque, mais uma vez, naquilo que sempre acreditou — lealdade, fidelidade, honestidade, que para ela estavam diretamente ligadas à felicidade.
Mas e se felicidade fosse o contrário, dar-se ao direito de saber o que realmente queria, sentia que estava sendo infiel como Alev estava sendo. Não seria essa felicidade que ele procurava, assim como Nuray.
A dúvida, atual, não era dar um telefone a um desconhecido e aceitá-lo em sua vida, até porque naquele momento jamais teria feito, ainda acreditava na fidelidade do marido. Agora a dúvida era aceitar ou não a volta de um amor mal resolvido em sua vida.
Nuray apertou o mouse…
Continua – parte IV – https://minezfo.wordpress.com/2021/08/04/a-partida/
Você precisa fazer login para comentar.