
O silêncio que se seguiu era denso, quase sólido, carregado de uma eletricidade estática que parecia estalar no ar cálido daquela tarde. Para Repha, o mundo ao redor — o burburinho distante dos passantes, o sussurro do vento e o brilho cintilante do lago — simplesmente estagnou. Ele deu um passo à frente, um movimento automático e magnético, como se uma força ancestral e invisível estivesse operando em seus pés. Seria o amor que ainda sentia, a dor de um dia ter perdido Nuray?
Ele a observava, tentando decifrar os enigmas daqueles três anos em que ela se tornou um fantasma em sua própria vida. Ali, no colo de Nuray, a pequena Atiye — com seus dois anos de descoberta e inocência — era a prova viva de que o rio havia seguido seu curso enquanto ele tentava, em vão, represá-lo.
Nuray recuou. O movimento foi sutil, quase imperceptível para um observador comum, mas para o olhar clínico de Repha, soou como um grito de guerra, uma declaração de resistência. Com uma urgência que beirava o desespero, ela ajeitou Atiye no quadril, envolvendo a menina com o braço em um gesto que transformava seu próprio corpo em uma armadura viva de carne e osso.
Nesse instante, Repha sentiu um estalo na mente, como se as engrenagens da realidade finalmente se encaixassem. O arco das sobrancelhas daquela criança era familiar demais, uma herança impressa em cada detalhe. A curva do lábio inferior enquanto a menina processava a presença dele, com uma seriedade precoce e analítica, era o espelho fiel de sua própria expressão. No entanto, o brilho selvagem e a teimosia indomável que emanavam daquele olhar? Aquilo era a essência pura de Nuray.
Ele parou a poucos metros delas, uma distância que Nuray considerava segura, mas que para a farsa que ela tentava sustentar, era perigosamente reveladora. Os olhos de Repha iniciaram uma sucessão de cálculos silenciosos e implacáveis, subtraindo os meses da partida abrupta dela, somando as noites de paixão avassaladora que haviam compartilhado antes daquela despedida sem explicações, sob o véu das mentiras dele.
— Nuray… — o nome dela escapou como um sopro, uma sílaba seca e desprovida de oxigênio, carregada de anos de perguntas acumuladas.
Ela não respondeu de imediato. Seus olhos, que antes buscavam refúgio no horizonte do lago, agora estavam cravados nele. Não havia mais o rastro do amor tórrido de outrora; no lugar dele, uma guarda altíssima e impenetrável. — Você não deveria estar aqui — ela finalmente disse. A voz, embora levemente trêmula pela descarga de adrenalina, buscava retomar o controle absoluto da situação. — Você deveria ir, Repha. Já dissemos tudo o que tínhamos para dizer… há muito tempo.
— Dissemos? — A voz dele era um sussurro rouco, uma vibração que parecia vir do fundo do peito. Ele não conseguia desviar o olhar da pequena Atiye, que agora, movida por uma curiosidade solene, espreitava por cima do ombro da mãe, ainda segurando a flor amassada com seus dedos miúdos. — Eu não me recordo de termos dito nada sobre… isso.
Nuray engoliu em seco, sentindo o peso esmagador daquela interrogação. Ela poderia inventar qualquer número, fabricar uma cronologia sobre um novo recomeço no exterior ou um pai fictício. Mas o olhar de Repha não estava apenas observando; ele estava realizando uma autópsia da verdade. Ele buscava na face daquela menina a prova final de que o passado nunca morreu, apenas esperou o momento adequado para cobrar o seu preço.
— Isso não importa agora — Nuray respondeu, a voz ganhando uma firmeza gélida e desesperada enquanto ela pressionava Atiye contra o peito, reafirmando sua posse. — Ela é minha, Repha. Apenas minha.
“Mami?” — Repha repetiu a palavra que a criança balbuciara, provando o som. — Ela disse “Mami”… mas o que ela diria se soubesse quem eu sou? Questionou ele em voz alta.
— Ela é minha, não é? Nuray, olhe para mim! Ela é minha filha!
— Ela é minha vida! — Nuray explodiu, as lágrimas vencendo finalmente a barreira dos cílios e escorrendo quentes por seu rosto.
— Onde você estava quando ela deu os primeiros passos? Onde você estava quando ela queimava em febre nas noites em que achei que a perderia? Você estava vivendo sua vida de mentiras, Repha!
Repha deu mais um passo, as mãos estendidas como se quisesse tocar o impossível. A confusão em sua mente deu lugar a uma dor aguda de arrependimento. Cada dia que ele passara longe, cada segredo que ele guardara, agora tinha um rosto: o rosto de uma criança que tinha os seus olhos.
Continua: Capítulo IV – Apenas sua? – Minezfo