
A palavra ficou no ar, cheia de uma inocência que atingiu Repha como uma flecha. Era uma sílaba comum, mas o jeito como a menina a pronunciou, a doçura em sua voz, despertou em Repha a lembrança de um som vagamente familiar, mas inegável.
Os passos dele pararam. A ideia de ir embora sumiu como fumaça. Lentamente, ele se virou, os olhos fixos em Nuray e na criança. A surpresa em seu rosto deu lugar a uma confusão crescente, misturada a uma ponta de reconhecimento que ele não conseguia explicar.
Os lábios dele se abriram um pouco, como se quisesse fazer uma pergunta, mas as palavras ficaram presas na garganta. Um nó se formou em seu peito, apertando o coração com uma ansiedade que só aumentava. Ele sentia o sangue bombear mais rápido, a mente a mil por hora, tentando encaixar as peças daquele quebra-cabeça.
A sombra do passado ganhava contornos mais claros, e o presente, com aquela menininha encantadora, parecia guardar um segredo que ele estava prestes a descobrir.
Havia algo nos olhos escuros da criança, no jeito como seus cachos pequenos emolduravam o rosto, que acendia uma faísca de uma memória distante, quase esquecida – memórias da mulher que ele amou com uma intensidade avassaladora, mesmo sob o véu de suas próprias mentiras.
A pulsação acelerada em suas têmporas acompanhava a certeza crescente de que aquela criança, de alguma forma inexplicável, estava ligada à presença de Nuray ele, evocando a profundidade do que viveram.
Nesse instante, como se sentisse o olhar intenso de Repha, Atiye se levantou meio desajeitada, ainda segurando a flor amassada. Com um sorriso largo e inocente, correu alguns passos em direção ao lago, chamando por Nuray com um balbuciar animado.
Nuray, que até então observava Repha com o coração na boca, reagiu na hora. Com um movimento rápido e protetor, estendeu a mão e pegou a filha no colo, afastando-a instintivamente da direção de Repha. Esse gesto, mesmo sutil, não passou despercebido por ele. A rapidez com que Nuray se moveu, o jeito como apertou Atiye contra o peito, pareciam confirmar o medo dela de ser reconhecida e, talvez, de que a criança fosse observada de perto.
A cabeça de Repha fervilhava. Aquele movimento instintivo de Nuray, a forma quase protetora como abraçou a menina, acendeu um alerta em sua mente. Por que tanto medo? Por que afastá-la tão rápido? A surpresa inicial de vê-la, misturada à familiaridade perturbadora da criança, agora se transformava em uma desconfiança crescente. Aquele ‘mami…” balbuciado por Atiye ecoava em sua mente, carregado de uma estranha lembrança. Seria só coincidência? O brilho nos olhos da menina, a cor escura de seus cabelos. Flashes de memórias que ele não conseguia identificar, mas que o perturbavam profundamente – lembranças de um amor que ele, apesar de tudo, jamais conseguiu esquecer, um amor que parecia destinado a ser eterno, mesmo com o peso de sua própria traição.
A reação defensiva de Nuray só aumentava a névoa de suas suspeitas. Era como se ela tentasse esconder algo, proteger um segredo. Mas que segredo poderia ser? O coração dele começou a bater mais forte, uma ansiedade fria se instalando no peito. A possibilidade, antes somente uma sombra distante, começava a ganhar forma, a ficar mais real. Seria possível? A ideia era tão absurda, tão inacreditável, que sua mente relutava em sequer pensar nela por completo. Mas a familiaridade insistente da menina e a reação imediata de Nuray o deixavam inquieto, com a sensação crescente de que algo importante estava sendo escondido.