Capitulo XI

No instante em que seus olhos se cruzaram, o mundo de Nuray parou. Uma descarga elétrica percorreu seu corpo, gelando a espinha e roubando-lhe o ar. Por um segundo aterrorizante, ela se viu presa naquele olhar, buscando, desesperada, um sinal de que ele a reconhecia, uma faísca daquele amor tórrido que um dia os incendiou, um amor que ela, em seu íntimo, sentia que era para a vida toda. Mas havia algo mais ali, uma pergunta silenciosa que a fez vacilar.

Será que ele a reconheceu? A surpresa no rosto dele era clara, mas algo mais profundo, algo que ela não conseguia decifrar, a jogou num mar de incertezas. O pânico a invadiu como uma onda gelada, paralisando seus músculos e acelerando seu coração num ritmo frenético, selvagem. Ela desviou o olhar de repente, como quem foge do fogo, fixando os olhos no lago cintilante. Mas a imagem de Repha, a lembrança daquele homem que um dia foi seu mundo, mesmo com a mentira que o envolvia, ficou gravada em sua mente, assombrando cada pensamento.

Aquele contato visual, mesmo que breve, havia quebrado a fina barreira de seu autocontrole. Seu plano, tão cuidadosamente montado para que tudo parecesse um simples acaso, dependia de Repha dar o primeiro passo. A fragilidade de Atiye, a urgência da doença dela, pairavam sobre Nuray como uma sombra gigante. Ela precisava da ajuda de Repha, precisava desesperadamente. Mas o terror de revelar seu segredo, de reviver um passado tão doloroso — um passado de paixão avassaladora e uma traição que ainda doía na alma —, a sufocava, deixando-a à beira do abismo, sozinha com o peso de uma decisão monumental.

Repha, mergulhado em um turbilhão de emoções, finalmente decidiu ir embora. A força do reconhecimento e a estranha familiaridade com a criança estavam mexendo demais com ele. Nuray o viu levantar-se do banco com um suspiro quase imperceptível. A ideia de ir para o hospital era mais forte que a paralisia inicial. No entanto, os olhos dele, sem que ele percebesse, buscaram a figura de Nuray uma última vez, como se uma força invisível o puxasse para ela. Era uma batalha visível em sua postura, entre a vontade de fugir e a necessidade de entender.

Nesse exato momento, Atiye, entretida com sua flor, soltou uma risada melodiosa que ecoou pelo parque. Era uma risada pura e contagiante, daquelas que carregam a essência da alegria infantil. E, quase em seguida, enquanto tentava pegar uma pétala que escapava de seus dedinhos, ela murmurou uma sílaba clara e doce: ‘mami…‘.

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