Capítulo XX – Veredicto silencioso

Ele encostou as costas na cadeira, fechando os olhos por um segundo. A imagem do rosto de Atiye, com aquela seriedade que era o espelho da dele, sobrepôs-se aos gráficos de pressão arterial e fluxos sanguíneos. Ele sabia que a operação seria uma descida ao inferno, uma batalha de horas onde qualquer milímetro de erro significaria o fim daquela pequena luz que ele acabara de descobrir.

Ele pegou o telefone interno. Sua voz, quando falou com a secretária, estava imbuída de uma determinação gélida, a mesma que Nuray demonstrara no parque.

— Cancele minha agenda de amanhã. Prepare a Sala 4 e chame minha equipe de confiança para uma reunião de emergência em vinte minutos. Temos um caso que desafia a estatística.

Ao desligar, Repha olhou para a foto de Atiye que acompanhava o prontuário. Ele salvaria aquele coração. Ele usaria cada grama de seu gênio para garantir que a filha vivesse. Mas, ao olhar para a assinatura firme de Nuray no formulário de autorização, ele sentiu a confirmação final: ele ganharia a vida da filha, mas o preço seria aceitar que, para a mulher que ele ainda amava, ele seria para sempre o cirurgião, e nunca mais o homem.

O ar no consultório tornou-se denso, impregnado pelo eco invisível daquela constatação. Repha continuou sentado por mais alguns instantes, o olhar fixo no papel sobre a mesa. A caligrafia de Nuray não trazia rasuras ou hesitações; era um traço firme, quase cirúrgico, desenhado por quem já havia chorado tudo o que tinha para chorar e agora se agarrava à última tábua de salvação. Ela não estava ali pedindo um milagre ao homem que um dia compartilhou seus sonhos. Estava contratando as mãos do melhor especialista que a medicina poderia oferecer. O amor dera lugar à necessidade cruel da sobrevivência.

Ele se levantou devagar. Cada movimento parecia carregar o peso de uma decisão sem volta. Ao vestir o jaleco, ajustou os ombros como quem veste uma armadura pesada para entrar em um campo de batalha onde a derrota não era uma opção aceitável. Ele caminhou até o espelho do lavabo do consultório, abriu a torneira e lavou o rosto com água fria. Ao encarar o próprio reflexo, buscou qualquer vestígio de dúvida ou fraqueza, mas não encontrou nada além da frieza calculada que o tornara famoso. O pai precisava adormecer para que o médico pudesse operar.

Ao cruzar a porta do consultório rumo aos corredores do hospital, o som dos seus passos ecoava ritmado contra o piso de granito polido. O cheiro incisivo de antisséptico e o murmurinho distante dos monitores pareciam agora um refúgio acolhedor, um território onde ele dominava todas as variáveis, ao contrário do terreno caótico de seus próprios sentimentos.

Na sala de reuniões, a equipe já estava posicionada. As luzes estavam ligeiramente reduzidas para destacar as projeções em alta definição dos exames de imagem da pequena Atiye. Quando Repha entrou, o silêncio instalou-se instantaneamente. Ele não fez rodeios, não ofereceu saudações cordiais e nem deu espaço para perguntas pessoais, embora soubesse que o sobrenome no prontuário já havia disparado os murmúrios entre os residentes.

Aproximou-se da tela e apontou com a ponta da caneta para a malformação complexa que ameaçava apagar a vida da filha. Sua voz soou pausada, precisa e absolutamente desprovida de emoção, detalhando cada ângulo de incisão, cada risco de perfusão e cada segundo contado de parada cardíaca induzida. Por dentro, porém, enquanto desenhava mentalmente a rota de resgate para o coração de Atiye, ele sabia que aquela cirurgia seria seu maior triunfo e sua maior condenação: salvar a vida da filha significava aceitar a sentença final de que, para Nuray, ele já era apenas uma lembrança vestida de branco.

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