Capítulo XVI:

O Despertar do Homem

Ele olhou para Atiye. Pela primeira vez, não como um médico analisando sintomas ou um amante buscando semelhanças, mas como um pai que acabara de ser apresentado ao seu maior fracasso. O rosto da menina, banhado pela luz filtrada do entardecer, era a prova viva de que ele havia sido um coadjuvante na própria história por três anos.

O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pela respiração curta e ruidosa da menina — um som que Repha conhecia bem demais, mas que agora parecia carregar o peso de uma acusação. Três anos de consultas perdidas, de aniversários ignorados, de uma paternidade vivida às avessas. Cada traço no rosto de Atiye era um lembrete cruel de tudo o que ele havia negligenciado em nome da própria carreira.

— Eu sei… — a voz de Repha saiu, enfim, em um tom que ele mal reconheceu. Não era a voz do “gênio infalível”, mas a de um homem que acabara de cair de um pedestal. — Eu sei exatamente quem é o pai dessa criança, Nuray. E sei também o tamanho do abismo que existe entre o que eu deveria ter sido e o que eu sou para ela agora: um estranho com um bisturi na mão.

Ele sentiu um impulso quase incontrolável de se aproximar, de tocar o cabelo cacheado da menina, de sentir o calor daquela pele que carregava o seu DNA. Mas o olhar de Nuray era uma muralha de gelo que o mantinha a uma distância segura — a distância da sua própria punição.

A menção à cardiopatia de Atiye fez seu cérebro de cirurgião trabalhar em alta velocidade, mesmo enquanto seu coração de homem sangrava. Ele observou a ligeira cianose nas unhas da menina, o modo como ela se cansava apenas por estar no colo. O diagnóstico de Nuray não era apenas um desafio técnico; era uma chantagem emocional legítima e desesperada.

Nuray não recuou. Ela suportou o peso daquele olhar sombrio com a altivez de quem já havia chorado todas as lágrimas possíveis antes daquele encontro. Ela sabia o risco que corria ao trazê-lo de volta para o tabuleiro, mas o desespero de mãe falava mais alto que o orgulho.

— Você acha que eu queria bater à sua porta, Repha? — a voz dela finalmente cortou o ar, gélida e cortante. — Se houvesse qualquer outra escolha… qualquer outro nome no mundo que pudesse mantê-la viva… você seria o último a saber.

— Você veio pelo técnico? — Repha perguntou, dando um passo à frente, os olhos agora fixos nos de Nuray, carregados de uma intensidade sombria. — Pois bem. O técnico aceita o caso. Mas não se engane, Nuray. Você me trouxe aqui para salvar a vida dela, mas ao fazer isso, você acaba de me dar um motivo para não deixar que vocês sumam novamente.

Ele respirou fundo, tentando estabilizar o tremor nas mãos que jamais ocorreria em uma cirurgia.

— Eu não sou apenas um erro de percurso que você pode consultar e descartar. Eu sou o homem que vai abrir o peito dessa menina e consertar o que está errado. E depois que eu fizer isso… — ele fez uma pausa, o olhar descendo para Atiye com uma promessa silenciosa — …nós vamos ter que decidir o que fazer com as mentiras que restaram.

Repha estendeu a mão, não para Nuray, mas em um gesto hesitante na direção da flor que Atiye ainda segurava. Ele não a tocou, mas seus dedos ficaram a milímetros dos dela.

O cheiro de antisséptico e o perfume adocicado de infância misturavam-se no ar abafado da sala, criando um contraste sufocante. Repha recolheu a mão lentamente, cerrando os dedos em um punho dentro do bolso do casaco, como se tentasse esconder o tremor que ameaçava traí-lo.

— Traga os exames para mim, estarei no hospital em uma hora — disse ele, a voz agora firme, destituída de qualquer hesitação, carregada de uma nova e perigosa certeza. Estaria lá, aguardando-as. 

Se sua filha havia conseguido desafiar a Europa inteira, aquela menina era um desafio à altura do homem que Nuray dizia desprezar, mas que continuava sendo o único capaz de mantê-la viva. E, ao salvá-la, ele destruíria cada tijolo da muralha que Nuray havia erguido entre eles, reconquistando o seu espaço. — Não ouse se atrasar, ameaçou Repha.

Ele virou as costas com passos decididos, o eco de sua partida deixando claro no ar abafado que o médico não estava apenas aceitando um paciente: ele estava retomando o seu lugar na história delas, e faria Nuray lembrar exatamente de quem havia se afastado.