Capítulo XXII – Crepúsculo na chácara

Faltavam apenas doze horas para a internação definitiva. Nuray, em um gesto raro de concessão à própria humanidade, decidira passar a última tarde com a filha fora do ambiente estéril da cidade. Ela levou Atiye para uma pequena chácara nos arredores, um refúgio de mangueiras e vento fresco. Sila preparava um lanche, enquanto Nuray balançava a rede, sentindo o peso leve da menina contra o seu peito.

Repha não deveria estar lá. Mas a ansiedade do cirurgião e a saudade do pai o levaram a dirigir quilômetros apenas para vê-las de longe. Ele estacionou o carro à sombra, observando a silhueta de Nuray através da cerca. Ele via a paz que ela tentava forjar, a inteligência de uma mulher que sabia que o amanhã seria uma batalha sangrenta em uma mesa de operação.

Vazio Repentino

O silêncio da tarde foi quebrado não por um grito, mas pela ausência de som. Nuray, que contava as respirações da filha como quem conta batidas de um relógio precioso, sentiu o corpo de Atiye relaxar de uma forma que o sono não explicava. O calor da pequena mão, que segurava a gola de seu vestido, subitamente se esvaiu.

— Atiye? — Nuray sussurrou, a voz flutuando no ar quente.

Não houve resposta. A cardiopatia, aquele inimigo invisível que Repha jurara vencer na manhã seguinte, decidiu que não esperaria pelo bisturi. O coração de Atiye simplesmente parou de lutar, ali, no balanço da rede, entre o cheiro de terra molhada e o abraço da mãe.

Repha, percebendo a mudança brusca na postura de Nuray, saltou a cerca e correu. Ele a encontrou imóvel, com a menina nos braços, os olhos fixos no vazio. Ele tentou tirá-la do colo dela, tentou as manobras, tentou o impossível no meio do mato, longe de qualquer desfibrilador. Mas, enquanto ele pressionava o peito da filha sobre a grama, Nuray apenas observava, as lágrimas secas, a inteligência processando a derrota final antes mesmo dele admitir o óbito. Nray perdia a filha e a luz de sua vida, enquanto Repha, o segundo filho, e a possibilidade de um dia se reconciliar com Nuray. 

Pôr do Sol

O sol se punha, pintando o céu com as cores de um incêndio, quando Repha finalmente parou. Ele estava de joelhos, as mãos sujas de terra e o rosto desfigurado pela dor de quem falhou antes mesmo de começar a lutar.

— Ela não esperou, Nuray… ela não me deu a chance de salvá-la — ele soluçou, a voz quebrada pela impotência.

Nuray levantou-se. Ela pegou o corpo de Atiye dos braços dele com uma delicadeza que cortava como navalha. Ela não o culpou com palavras, mas seu silêncio era uma sentença de morte para qualquer esperança de futuro entre eles.

— Você passou a vida se preparando para o impossível, Repha, mas esqueceu que a vida acontece no intervalo — ela disse, a voz gélida, imponente mesmo no ápice do luto. — Eu a trouxe para você salvá-la, e você a deixou morrer no meu colo enquanto olhava pela cerca.

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