
Os últimos três anos, desde o desaparecimento de Nuray, haviam sido um misto de alívio e vazio para Repha. O alívio por suas mentiras não terem sido escancaradas (assim ele ingenuamente pensava, ignorando que a partida de Nuray fora justamente a confirmação de suas mentiras) e o profundo vazio da ausência de uma paixão que o consumira intensamente.
Ele seguiu com sua vida, agora separado daquela que outrora fora sua esposa – Lenny. A separação ocorrera de forma surpreendentemente tranquila, quase protocolar, sem discussões acaloradas ou acusações. Aquele período também fora marcado por uma dor lancinante e compartilhada: a perda do filho Yusuf, que abalou o casamento fragilizado.
A lembrança daquele dia fatídico no parque ainda os assombrava. Yusuf, com sua alegria contagiante, corria entre os brinquedos, quando um instante de descuido da babá, ceifou sua vida. A queda, a corrida desesperada, a sirene distante e, finalmente, o silêncio gélido da notícia que nenhum pai jamais deveria ouvir.
Apesar de todos os esforços médicos, a vida de seu menino esvaiu-se, deixando um buraco irreparável em suas existências. Repha sentia o peso da culpa por não ter estado mais presente na vida do garoto, enquanto Lenny, apesar de sua aparente frieza, recolheu-se em um luto silencioso e profundo, a perda do filho único expôs uma fragilidade dela que poucos conheciam e jamais veriam novamente.
No entanto, para Lenny, sempre tão pragmática e distante emocionalmente em relação ao casamento, optou por um divórcio discreto, o que parecia a solução mais eficiente, evitando qualquer exposição desnecessária da intimidade de sua perda. A condição imposta por ela para oficializar a separação era simples: o silêncio absoluto sobre o assunto, como se o fim da união fosse um mero detalhe administrativo que não exigia alarde.
Após a separação, Repha tentou de todas as formas encontrar Nuray, porém não obteve êxito, pois pouco sabia dela, somente o que ela achava que ele deveria saber, a exemplo de onde viera, e sabendo o nome da cidade natal de Nuray, ele se mudou para lá, na esperança de um dia reencontrá-la.
Nos últimos três anos, o renomado cardiologista refez toda a sua vida. Continuou se especializando em sua área, trabalhando sem descanso, mas sem nunca esquecer do amor de sua vida. A rotina exaustiva do hospital preenchia seus dias, mas as lembranças constantes de Nuray, com sua força inabalável e aquele sorriso raro que o desarmava, permanecia como uma sombra sutil, teimando em não desaparecer.
Naquela tarde ensolarada de sábado, enquanto se preparava para mais um plantão no hospital, a imagem de Nuray invadiu seus pensamentos com uma intensidade incomum. Era como se, de tanto pensar nela, sua presença se tornasse quase palpável, uma vaga lembrança de um perfume distante, do calor de sua pele.
Distraído por essas recordações, Repha decidiu caminhar pelo parque perto do hospital, buscando um breve respiro entre as longas horas de trabalho que o aguardavam. Sentou-se em um banco à sombra de uma árvore frondosa, observando o movimento das pessoas, casais de mãos dadas, crianças correndo e brincando.
O que ele não imaginava é que naquela tarde ensolarada de sábado, Nuray observava Repha discretamente de longe. Ela não viera ao parque por acaso. Antes de retornar, havia realizado suas pesquisas, sondado a rotina do renomado cardiologista, sabendo que aquele local, próximo ao hospital, era um de seus refúgios ocasionais nos fins de semana.
Reconhecera a figura de Repha assim que ele se sentara no banco sob a árvore frondosa. O tempo havia marcado algumas linhas de expressão em seu rosto, mas a intensidade de seu olhar permanecia a mesma.
Em seus braços, Atiye dormia serenamente, alheia à tensão que pairava no ar. Nuray sentia um turbilhão de emoções, desde a familiaridade daquele homem que ainda amava, a dor da traição pela mentira que ele contara e que a fizera partir, além do medo de revelar seu segredo e a urgência da condição de sua filha, que a trouxera de volta. Por hora, a distância parecia segura. Ela precisava observá-lo, avaliar sua expressão, sentir a atmosfera antes de contar a ele sobre a filha de ambos, cuja existência ele desconhecia.
Aquele reencontro, cuidadosamente orquestrado por ela, era o primeiro passo incerto em direção a um futuro que dependia da reação de Repha.
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