Sonhos – tudo e licença poética

Do alto da ponte ela sabia que a hora estava chegando, e pensava: nunca poderá contar suas histórias engraçadas para os netos, pois não teve filhos.

Ela nunca terá paz na vida, pois foi essa vida que escolheu. E como já disseram nem pode reclamar, pois foi essa vida que ela escolheu.

Mas ela queria viajar, ter novas experiências, conhecer novos lugares, mas a vida que ela escolheu não permitia isso.

Sim, ela tinha inveja de quem realizou tudo isso, justo ela que nunca fora era invejosa antes, agora era, mas seu coração endureceu, deixou de ser feliz, tornou-se amarga.

Ela queria ajuda dos irmãos e companheiro, mas eles não a compreendiam. Mas ela sonhava que um dia isso pudesse acontecer.

Ela sonhava com um refúgio para ir quando tudo estivesse bagunçado em sua cabeça, mas os amigos tinham outras prioridades.

Ela sonhava tanto, mas sua realidade era tão dura e aos poucos ela foi perdendo a alegria, a gargalhada contagiante, a capacidade de fazer os outros sorrirem, mas aprendeu a fingir para que todo mundo achasse que ela estava bem e feliz.

Mas ela pode dar um fim a tudo, só depende dela e que faça rápido, indolor e longe de quem possa atrapalhar. E quem sabe assim continuar sonhando para sempre com tudo que desejou e não teve.

Autora: Maria Inez Freitas de Oliveira

Dores

Já deveríamos ter aprendido que se o corpo todo dói é porque também deve haver algo errado com a alma. Mas, eu por exemplo, presto mais atenção ao corpo. A observação, a atenção à minha alma, essa vou procrastinando…

Não deveria ser assim, mas nos preocupamos tanto com os outros, com aqueles que amamos, que esquecemos até de como lidar com a gente..

E assim esquecemos que para cuidar do outro, antes precisamos cuidar de nós.

O corpo manda alertas, mas nunca prestamos atenção a ele e menos ainda na alma.

Deveríamos sermos mais afetuosos conosco, mas sempre queremos ser mais cordiais com os outros, mas como posso amar o outro, se nem amamos a nós?

Sabemos cuidar das dores dos outros, mas não sabemos cuidar da nossa.

Para alguns, a dor do próximo não importa. Acham que a dor dele é menor.

Não há dores menores, acredito que existam formas de se lidar com elas.

As dores podem vir de perdas sejam elas quais forem, amores, objetos, emprego, autoconfiança, familiares, saúde e por aí vai e não imposta qual seja, porque em cada um de nós terá intensidade.

Mas como lidaremos com elas, cabe somente a nós decidirmos. Se será com drogas, sejam ela licitas ou não; se será vivendo e achando que está arrastando grilhões pela eternidade, ou se será tentando entender e de certa forma sanar essa dor.

Não cabe a nós julgar como cada pessoa escolheu lidar com a sua dor, mas se você não puder ajudar, cale-se, pois na atualidade, uma palavra é capaz de reconstruir ou destruir uma vida.

A minha já foi destruída e reconstruída várias vezes. Sei que meu corpo hoje pede socorro. Tô correndo atrás. Se terei sucesso, não sei, mas tô tentando não desistir.

Recomeçar

Acordei pensando que quase sempre pareço com um passarinho, que está aprendendo a voar, mas a diferença é que ele tem a sua mãe, que o pega antes de se esborrachar no chão, enquanto eu não. Eu caio, quebro a asa e nem dá tempo dela curar pra tentar a voar novamente.

Quando me esborracho no chão e me machuco, que fico com a asa quebrada, simplesmente levanto, limpo a poeira e recomeço, afinal a vida não é feita de começos e sim recomeços. O único começo que temos é quando nascemos.

Eu sei… sempre caio, entretanto, não fico no chão muito tempo. Estou sempre tentando me reeinventar.

E nesse tal de reeinventar, ninguém me conhece realmente.

Mas eu me conheço, sei da minha limitações, do que sou capaz e sei que cada vez que tento voar, nem é sobre voar, mas sim sobre a coragem que tenho de nunca desisitir, apenas dar um tempo para recomeçar.

Abuso sexual infantil não é coisa de criança

Sempre tive problemas com toques, desde que me entendo por gente. Nunca gostei de ser tocada, roçada. Incomodava-me, é como se fosse uma invasão, me sentia suja. Mas nunca me perguntei o porquê, o fato de sentir isto. Apenas levava a vida, estudava, cuidava dos  irmãos, trabalhava em casa. Na adolescência não fui muito de me interessar por rapazes. Geralmente já queriam ir pra pegação e eu simplesmente odiava isto.  

Sim, gostava de meninos, sempre gostei, principalmente os mais inteligentes, que tinham algo a ensinar, trocar ideias, só conversar. No máximo beijos e olhe lá, quando a mão tentava algo mais, eu já fugia e o dito cujo nunca mais me via.

Isso sim. Isso começou a me incomodar, pois passei a ter sonhos recorrentes, de um senhor me colocando no colo, fazendo com que eu pegasse em sua genitália, enfiando seus dedos em mim. Eu simplesmente não entendia o que estava acontecendo.  Era horrível, eu chorava, não dormia com medo de tudo acontecer novamente. O que eu nunca imaginei, é que não eram sonhos e sim lembranças.

Lembranças de um tio, porco nojento, pedófilo.  Eu era apenas uma criança de 5/6 anos, mas o que ele fez comigo permanece por toda a minha vida. E mesmo depois de adulta, de entender as coisas ainda achava que eram sonhos, que talvez não houvesse ocorrido.  Mas ocorreu.

Ele era mascate, vendedor de jóias, lembro que uma vez após suas investidas (eu já deveria ter uns 7 anos) me deu um brinco de ouro cravejado de diamantes e rubis. Quando ele virou as costas, joguei no meio do mato. Depois disse a meu pai e madrasta que havia perdido. Eu o odiava, mas não sabia o motivo.

E de repente o diabo não apareceu mais lá em casa. A vida passou, e comecei a me interessar por um carinha, inteligente, bonitinho. Sempre estava comigo, sempre. Conversávamos horas inteiras, lógico que escondido do meu pai (meu pai dizia que filha dele não namorava e sim estudava para nunca depender de homem. Errado não estava). Um fim de semana os pais desse rapaz viajou, ele me chamou para casa dele.  Caralho, quando vi, ele já estava em cima de mim, e eu pedia não, que não fizesse aquilo. Com muita força consegui me desvencilhar, mas o primo dele estava lá, pronto pra ajudá-lo. Gritei com todas as minhas forças. Um vizinho apareceu, sai de lá chorando, as roupas rasgadas, mas como se diz a honra intacta.

Antes ele apenas disse: você acha que perdi todo esse meu tempo com você atoa, eu queria algo em troca, sexo. Você é gorda, feia, sem graça. Irei poupá-los mais uma vez dos detalhes sórdidos.  Minha estima morreu ali, bem ali.

A gente apaga essas lembranças da memória. Mas eis que chega o dia, que você deve enfrentar seus medos. Em meados de 2006, entrei numa depressão profunda, que não acabava que não tinha fim. Já era a segunda. Em 1998 já havia ocorrido, e eu havia tentando suicídio pela segunda vez (não, não foi a primeira vez como muitos pensam).

Como sempre queria acabar com essa dor que nos machuca e faz com que a gente queira machucar quem amamos.

Mas aí, foi quando procurei ajuda , fui a psicólogo, psiquiatra, a parapsicólogo. Em 2007 fiz regressão. Vou poupá-los leitores dos detalhes sórdidos, que me doem até hoje.  Graças a Deus esse verme morreu e deve estar comendo o cu do diabo ou o contrário.

O tratamento me ajudou e muito. Percebi que não era fria, feia, ou qualquer outra coisa que tenham feito com que eu acreditasse.

Quem me conhece, sabe que não fui criada com a minha mãe, mas quando contei a ela, se o pedófilo estivesse vivo, teria morrido naquele momento.

Quanto ao meu pai, contei tudo a ele, sua resposta é que inventei tudo isso, que seu parente era idônea, honesta e talz. E ele fica falando dele quando nos encontramos como se fosse um santo.

Contei a uma prima, ela disse que acreditava em mim, pois quando tentou com ela, levou uma lavada, dizendo que se ele tentasse qualquer gracinha com ela, iria contar tudo ao pai e ele seria um homem morto.

Daí vocês me perguntam: Inez qual o motivo de você estar falando isso agora?

Simples tive um gatilho no fim de semana e foi horrível, triste, chorei, sim quis morrer. Só qie já sofreu abuso, sabe o quanto é triste, ruim, desesperador.

Mães, pais estejam sempre atentos aos seus filhos, sempre.

Eu não os tenho, mas sei que seria capaz de matar qualquer um que mexesse com minhas sobrinhas, com minha neta.

A dor não passa, a gente aprende a conviver, a enterrar e assim seguir em frente.