Meu quarto, minha vida

Eu sempre afirmo que minha vida se parece com meu quarto. Se ele estiver desorganizado, minha vida com certeza não está nos trilhos. Pois, agora  a situação se inverteu. Meu quarto está organizado; o guarda roupa em ordem, com todas as roupas guardadas simetricamente por cor, tipo, assim como estão nas gavetas ( tenho esta mania, mas não é  patologia, que é TOC – transtorno obsessivo compulsivo- e sim uma característica minha ). Sem papéis espalhados pelo chão ou moedas.
No  banheiro tudo impecável. Todos os xampus e condicionadores, pois tenho várias marcas (cabelo vicia em uma marca só)  estão em ordem. No armário escova de dentes (três), cremes, entre outros itens estão cada qual em seu lugar como se nunca tivessem sido mexidos. Maquiagem no lugar, sabonetes nos potes. A casa também está em ordem, sem papéis espalhados na sala, ou vasilhames sujos na cozinha ou mesmo roupas por passar na cama do quarto de hóspedes. Enfim, tudo em seu devido lugar.
Já os  remédios para bipolaridade e depressão estão  em seus devidos lugares, pois se parecem muito e outro dia eu tomei o de acordar para dormir e passei a noite feito zumbi e em me toquei do que tinha acontecido. Imagine descobrir logo pela manhã que trocou os alaranjadinhos. Só eu mesma.
Entretanto, minha vida está um caos. Meus pensamentos confusos, o coração e a alma estão machucados, feridos e magoados.  Não estou feliz, porque felicidade é um estado – você esta ou não, e ninguém é feliz todo o tempo.
A data de hoje me remete a fatos que gerei e tiveram conseqüências, me lembra perda. Mas ao mesmo tempo me lembra que em 30 dias muita coisa aconteceu. Descobri coisas que jamais gostaria de ter descoberto. Não que eu quisesse continuar sendo enganada. De forma alguma, mas que eu descobrisse de uma forma mais branda, menos dolorosa.
Fatos que machucaram e ainda me machucam e fazem com que eu chore todos os dias (na maioria das vezes sozinha para ninguém ver ou com minha terapeuta, afinal as pessoas não gostam de pessoas tristes, choronas e reclamaonas) na esperança de que as pessoas que me machucaram me procurem e façam com que eu entenda porque me machucaram tanto (para que eu entenda as coisas, pois para isto sou como criança, tem que ser bem explicadinho, bem mastigadinho).
Me expliquem porque  me magoaram, falando de minha intimidade, espalhando boatos (que prefiro, por ora guardar comigo), dizendo que os meus atos eram de criança mimada, que já estava acostumada a tal atitude. Estas pessoas não vivem, e nem viveram a minha vida. Não sabem pelo que passei e nem os motivos de meus atos.  Mas com certeza não foram atos de uma pessoa mimada, nem inconseqüente, foram atos de uma pessoa com medo, desesperada, solitária, que desejava uma saída.
Estas pessoas não imaginam o que passei por causa dos boatos espalhados, as humilhações que enfrentei  e a falta que senti de pessoas que amei e amo. Estas pessoas em que tanto confiei, não imaginam quantas vezes desliguei o telefone para não ter que dar explicações, respostas.
Quando espalharam o boato não pensaram nas conseqüências que iriam provocar em minha vida. Elas não imaginam o quanto hoje é doloroso para que eu saia para trabalhar e pensar que não estão rindo da minha pessoa ou sorrindo para mim. Que não estão apontando o dedo para minha pessoa e fazendo julgamentos e no fim acusando ou absolvendo. Essas pessoas não passaram pelo que estou passando.
Mal sabem elas, que todos os dias pago pelos  meus atos, que  foram  somente uma fuga de problemas, os quais apenas a mim dizem e diziam respeito. Estas pessoas, provavelmente, não perderam o amor e respeito da pessoa  que ama, assim como eu perdi. E que todos os dias eu me pergunto os motivos dela não me ligar, pois a conheci um pouco e sei que ela se preocupa com quem é especial. Imagino que me odeie, pois fui cruel com ela, o máximo que consigo e sei ser quando estou ferida. Então deixei de ser especial para ela, pois jamais me ligou.
No meio de tudo isto uma amiga querida me enviou uma mensagem do padre Fábio, que falava do caminho mais fácil e o mais difícil. Para mim seria tão simples seguir o fácil, processaria as pessoas que espalharam os boatos e depois voaria até a pessoa que gosto, ajoelharia em seus pés e pediria perdão (seria no mínimo engraçado, mas não teria vergonha de fazer).
Entretanto, optei pelo mais difícil. E todos os dias eu peço a Deus que abrande meu coração, que me ilumine e me dê forças para seguir em frente e perdoar estas pessoas, pois o perdão sempre foi tão difícil para mim. Peço a Deus todos os dias que meu ‘Maior Amor’ (soneto de Vinicius de Moraes) me perdoe e deixe de me odiar, que me ligue e que seja apenas uma pessoa capaz de ser minha amiga, pois preciso dela, sinto sua falta, sinto falta de conversar e rir junto com ela, quando falamos de nossas peripécias, de nossos micos, sinto falta de saber dos problemas dela e imaginar que talvez eu a esteja ajudando.
Todos os dias eu peço a Deus que me perdoe, mas acima de tudo que me ensine a perdoar a mim mesma.
“Que essa vontade que eu tenho de ir embora, se transforme na paz e na calma que eu mereço”