Sempre tive problemas com toques, desde que me entendo por gente. Nunca gostei de ser tocada, roçada. Incomodava-me, é como se fosse uma invasão, me sentia suja. Mas nunca me perguntei o porquê, o fato de sentir isto. Apenas levava a vida, estudava, cuidava dos irmãos, trabalhava em casa. Na adolescência não fui muito de me interessar por rapazes. Geralmente já queriam ir pra pegação e eu simplesmente odiava isto.
Sim, gostava de meninos, sempre gostei, principalmente os mais inteligentes, que tinham algo a ensinar, trocar ideias, só conversar. No máximo beijos e olhe lá, quando a mão tentava algo mais, eu já fugia e o dito cujo nunca mais me via.
Isso sim. Isso começou a me incomodar, pois passei a ter sonhos recorrentes, de um senhor me colocando no colo, fazendo com que eu pegasse em sua genitália, enfiando seus dedos em mim. Eu simplesmente não entendia o que estava acontecendo. Era horrível, eu chorava, não dormia com medo de tudo acontecer novamente. O que eu nunca imaginei, é que não eram sonhos e sim lembranças.
Lembranças de um tio, porco nojento, pedófilo. Eu era apenas uma criança de 5/6 anos, mas o que ele fez comigo permanece por toda a minha vida. E mesmo depois de adulta, de entender as coisas ainda achava que eram sonhos, que talvez não houvesse ocorrido. Mas ocorreu.
Ele era mascate, vendedor de jóias, lembro que uma vez após suas investidas (eu já deveria ter uns 7 anos) me deu um brinco de ouro cravejado de diamantes e rubis. Quando ele virou as costas, joguei no meio do mato. Depois disse a meu pai e madrasta que havia perdido. Eu o odiava, mas não sabia o motivo.
E de repente o diabo não apareceu mais lá em casa. A vida passou, e comecei a me interessar por um carinha, inteligente, bonitinho. Sempre estava comigo, sempre. Conversávamos horas inteiras, lógico que escondido do meu pai (meu pai dizia que filha dele não namorava e sim estudava para nunca depender de homem. Errado não estava). Um fim de semana os pais desse rapaz viajou, ele me chamou para casa dele. Caralho, quando vi, ele já estava em cima de mim, e eu pedia não, que não fizesse aquilo. Com muita força consegui me desvencilhar, mas o primo dele estava lá, pronto pra ajudá-lo. Gritei com todas as minhas forças. Um vizinho apareceu, sai de lá chorando, as roupas rasgadas, mas como se diz a honra intacta.
Antes ele apenas disse: você acha que perdi todo esse meu tempo com você atoa, eu queria algo em troca, sexo. Você é gorda, feia, sem graça. Irei poupá-los mais uma vez dos detalhes sórdidos. Minha estima morreu ali, bem ali.
A gente apaga essas lembranças da memória. Mas eis que chega o dia, que você deve enfrentar seus medos. Em meados de 2006, entrei numa depressão profunda, que não acabava que não tinha fim. Já era a segunda. Em 1998 já havia ocorrido, e eu havia tentando suicídio pela segunda vez (não, não foi a primeira vez como muitos pensam).
Como sempre queria acabar com essa dor que nos machuca e faz com que a gente queira machucar quem amamos.
Mas aí, foi quando procurei ajuda , fui a psicólogo, psiquiatra, a parapsicólogo. Em 2007 fiz regressão. Vou poupá-los leitores dos detalhes sórdidos, que me doem até hoje. Graças a Deus esse verme morreu e deve estar comendo o cu do diabo ou o contrário.
O tratamento me ajudou e muito. Percebi que não era fria, feia, ou qualquer outra coisa que tenham feito com que eu acreditasse.
Quem me conhece, sabe que não fui criada com a minha mãe, mas quando contei a ela, se o pedófilo estivesse vivo, teria morrido naquele momento.
Quanto ao meu pai, contei tudo a ele, sua resposta é que inventei tudo isso, que seu parente era idônea, honesta e talz. E ele fica falando dele quando nos encontramos como se fosse um santo.
Contei a uma prima, ela disse que acreditava em mim, pois quando tentou com ela, levou uma lavada, dizendo que se ele tentasse qualquer gracinha com ela, iria contar tudo ao pai e ele seria um homem morto.
Daí vocês me perguntam: Inez qual o motivo de você estar falando isso agora?
Simples tive um gatilho no fim de semana e foi horrível, triste, chorei, sim quis morrer. Só qie já sofreu abuso, sabe o quanto é triste, ruim, desesperador.
Mães, pais estejam sempre atentos aos seus filhos, sempre.
Eu não os tenho, mas sei que seria capaz de matar qualquer um que mexesse com minhas sobrinhas, com minha neta.
A dor não passa, a gente aprende a conviver, a enterrar e assim seguir em frente.