
O olhar de Repha vagueava pela cena bucólica, absorvendo a despreocupação das famílias aproveitando o sábado. Havia uma melancolia sutil em observar aquela felicidade alheia, um contraste com o vazio que, apesar dos anos, ainda o assaltava em momentos de quietude. De repente, uma figura feminina mais distante prendeu sua atenção. Havia algo na maneira como ela estava sentada, ligeiramente curvada, observando algo em seu colo, que despertou uma vaga familiaridade. A cor escura de seus cabelos, longos e soltos, agitados por uma brisa suave, ecoava em sua memória. Ele tentou focar, a distância dificultando a nitidez dos traços.
Lentamente, a mulher moveu a cabeça, talvez seguindo o movimento de algo ou alguém. Foi um movimento pequeno, quase imperceptível, mas o suficiente para que o perfil de seu rosto se tornasse mais visível para Repha. Uma súbita e intensa onda de reconhecimento o atingiu, como um choque elétrico, fazendo seu coração errar uma batida, talvez duas.
O tempo pareceu se esticar, cada segundo carregado de uma intensidade sufocante. Uma torrente de lembranças o invadiu como a força de uma maré alta: o brilho travesso em seus olhos quando o desafiava em discussões acaloradas, a suavidade de seu toque em meio à paixão, o som de sua risada que ecoava em noites secretas.
Mas junto à doçura das lembranças, a culpa o apunhalou com a mesma intensidade, a consciência vívida de sua mentira, a lembrança cortante do dia em que ela desapareceu, deixando um vazio que nenhum sucesso profissional jamais preencheu.
A linha de seu maxilar, a curva delicada de seu pescoço… eram inconfundíveis, gravadas a ferro e fogo em sua memória, assombrando seus sonhos e seus momentos de solidão. E então, como se o destino conspirasse para um momento de clareza perfeita, ela se virou um pouco mais, e a luz da tarde incidiu diretamente em seus traços, revelando inequivocamente o rosto de Nuray.
Um nó se formou em sua garganta, impedindo qualquer som de escapar. Havia mais maturidade em seu olhar, talvez uma sombra de tristeza, mas a beleza que o havia enfeitiçado permanecia intacta, despertando um turbilhão de emoções há muito adormecidas.
Por um instante, Repha ficou paralisado, a mente um turbilhão de perguntas e receios. Deveria se aproximar? O que diria depois de tanto tempo? Como ela reagiria à sua presença? A culpa o corroía, a lembrança de sua traição pairando como uma barreira invisível entre eles. Talvez fosse melhor somente a observar de longe, deixar que a imagem de sua felicidade, mesmo distante, fosse suficiente. Mas a intensidade da saudade, a súbita e inesperada reaparição de um passado que ele acreditava ter selado, o impulsionavam a romper a distância. Seus pés hesitaram em dar o primeiro passo, presos em uma batalha interna entre o desejo e o medo.
Foi então que ele percebeu. Abaixo de Nuray, quase escondida pela sua saia longa, uma pequena figura se movia. Uma menina, de aproximadamente dois anos, estava absorta em seu próprio mundo, brincando com uma flor caída no chão. Seus pequenos dedos delicados exploravam as pétalas coloridas com uma concentração adorável.
Repha observou a criança por um instante, a inocência de seus gestos contrastando com a tempestade emocional que o assolava. Havia algo familiar na vivacidade de seus movimentos, na maneira como seus pequenos cachos escuros brilhavam sob a luz do sol. Uma pontada de uma vaga lembrança o atingiu, algo que sua mente lutava para conectar…
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