Somos quatro irmãos. Era para ser cinco, mas, Deus achou por bem levar um de nós. Quando ele se foi, o mais novo não havia nascido, o que aconteceu exatos nove meses depois da morte do Jeremias. O Zequinha, o mais novo, veio para tirar a dor de nosso coração, com a perda dele. O Zequinha tornou-se o único elo entre irmãos que não aprenderam a se amar, apenas serem mais fortes, pois meu pai não tinha tempo para nós. E quando chegava em casa e ficava sabendo de nossas brigas dizia: que vença o mais forte. Nós nãos nos dávamos bem com nossa madrasta, e o meu pai seguia a mesma linha, que vença o mais forte.
Nossa mãe, que faleceu em 2017, nos largou muito cedo. Das minhas lembranças, apenas que não havia entrado na escola ainda, dos móveis sendo levados (nem coberta ela nos deixou, levou a TV, que era nosso único lazer). Eu tendo que cuidar dos meus irmãos, ir às reuniões de pais, a farmácia quando estavam doentes.
Aprendi a cozinhar antes de ler, a dar banho, passar remédios em meus irmãos, antes de escrever. E o que pode acontecer com uma criança com menos de sete anos, passando por tudo isso. Traumas, a ser forte, a superar tudo. Lógico que meu pai percebeu, meus avós paternos foram morar com a gente, mas não tenho lembranças boas e olhe que avós são para se ter boas lembranças. Nada mudou para mim.
Antes dos meus avós, da minha madrasta, lembro que morávamos em frente a rodovia principal que passa pela cidade de |Uberlândia , uma das mais perigosas entre os bairros Marta Helena e Bairro Brasil, na época. Eu vi uma criança morrer ali e sua mãe chorar segurando o sapatinho dela. Mas, minha mãe não estava do meu lado. Porém, naquele momento aprendi que a rodovia era perigosa e pedia ao meu pai para trancar as portas para que meus irmãos não saíssem, pois tinha medo de perdê-los. Eu ainda tinha tanto amor por eles – Eurípedes, Ana e Jeremias.
O Eurípedes era para Ana e ela por ele. E eu era para o Jeremias e ele por mim – o chamávamos de Neném – era loirinho, lindo. Enquanto vivo nunca me largou e dizia que jamais me largaria, e que iria estudar, ser médico, cuidar de nossa mãe, buscá-la de volta. Eu escutava com o coração partido, pois já tão nova pensava que se um dia tivesse filhos, jamais os abandonaria. Se um dia tivesse que sair de casa, iriam juntos comigo.
E um belo dia antes do Jeremias fazer 15 anos e eu 14, ele se foi. Despediu-se de mim, dizendo que queria ficar, cuidar de mim. Saiu de madrugada com meu pai e não voltou mais. Naquele momento não sabíamos que seria a última vez que nos veríamos. Me senti traída, por ele, por Deus, por todos. Meu único amigo havia partido sem mim., não havia cumprido sua palavra. Só anos depois pude perceber que na verdade ele nunca me largou, esteve sempre comigo, em meu coração. Seu rosto não se perdeu em minhas lembranças como dizem por aí. Muito pelo contrário lembro de cada curva do seu rosto até hoje.
Escola
Quando entrei na escola, achava que seria minha libertação que teria coleguinhas. Ohhhh engano. Era alvo de chacota. Ou porque não tinha mãe, porque era gordinha, estrábica, não tinha livros. Erámos pobres, meu pai não tinha condições. Lembro dele chegar com as mãos machucadas, pois antes quando estava com minha mãe fazia frete, e sem ela passou a ser servente de pedreiro. Logo depois arrumou um emprego e como nossos avós ainda não morava com a gente e nem havia a madrasta, meu pai colocava os quatro dentro do carro e nos levava pra trabalhar com ele.
Daí veio minha madrasta, achei que seria tudo de bom, que teria uma mãe. Mais um engano. Brigas, brigas. Nunca ficava em casa, trabalhava com meu pai na rua. E quando ficava em casa, era um martírio, se havia brigas, a frase era sempre a mesma: que vença o mais forte. As brigas pararam depois que o Zequinha nasceu. Ele foi nosso anjo.
Eu meus irmãos crescemos ser saber o que era amor, mas sim a ser inimigos, rivais, que vencesse o melhor. Com a morte do Jeremias, fiquei rebelde, comecei a andar com turmas barra pesada (sem meu pai saber) aprendi a fumar. Saí fora, pois um dos chefes da gangue tentou me pegar a força. Fui salva pela namorada dele: Marilaine. Nunca esqueci o nome dela. Ele era chamado de Carioca.
Fui me afastando da Ana e do Eurípedes, mas cuidando de longe. Nunca deixei faltar nada para a Ana. Era uma boneca loirinha, pequena. Ganhava as coisas e dava para ela. Não queria que ela sentisse as dores que eu já havia sentido. Criei um monstro mimado. Não nos falamos há mais de três anos. Deixei de brigar, discutir. Dizem que quando deixamos de brigar, de desistir, é porque deixamos de amar. Não, eu nunca deixei de amar minha irmã, apenas me faz mal de estar perto dela, ter contato com ela. Somos completamente diferentes. Ela sempre foi o cérebro e linda. Eu achava que ela iria alcançar o céu no quesito conhecimento. Queria ser psicóloga, mas é professora. Fiquei sabendo até que lançou um livro.
Em comparação a ela, sofria na escola, não entendia as matérias, tinha dificuldades para aprender, dependia dos outros, e por saber disso, aprendi a fazer amizades que pudessem me ajudar, e aos poucos fui aprendendo o que era confiar novamente, ter pessoas do lado. Fui só por muito tempo. Meu pai dizia que eu era um bicho esquisito, que só vivia dentro do quarto lendo livros, jornais, revistas. Que me vestia como homem. “O tanto que sonhei com uma filha mulher e veio você desse jeito, tão diferente da Ana”. Jamais esqueci essa frase.
Entretanto, essa frase me impulsionou a ser melhor como pessoa, como estudante, e naquele dia jurei, que enquanto não me formasse, tivesse estabilidade, fosse alguém na vida, não casaria, não teria filhos.
Voltando a Ana, o problema é que eu fazia amizade com os amigos dela, e não percebia os ciúmes dela, a rivalidade, não fazia por maldade, queria apenas aprender, ‘a passar de ano’, como diziam antigamente. E assim nos afastamos mais ainda. Porém, não desisti dela, jamais. Mas, ela me traiu, traiu minha confiança, e deixo claro que isso sou eu que penso. Nunca sentei com ela para falar sobre o assunto.
Ela me traiu quando me pediu para ajudá-la a contar ao meu pai que estava grávida de um namorado que meu pai nem sabia que existia, e eu fiquei, desisti dos meus sonhos por ela naquele dia. E o que ela fez fugiu, enquanto meu pai foi beber água na cozinha. Subiu na garupa do rapaz e se mandou. Naquele dia, eu morri mais um pouco. Nessa época, ainda virgem, ingênua, tinha medo dos rapazes. Tive que escutar da família inteira que esperavam de mim e jamais dela. Sim eu era custosa, aprontava, mesmo com medo dos rapazes, saía com eles, falava alto, não tive trava na língua. E doeu, doeu.
A minha irmã perdeu a criança logo depois, o namorado dela na época, que foi logo depois se tornou marido e agora estão separados, me procurou. Nem escutei o que ele tinha a dizer, mas ele disse: ela precisa de você, acabou de perder a criança. Respondi apenas, que estava curando minhas feridas e esperando meu pai voltar pra casa, que todo mundo esperava de mim e não dela. Que ela me traiu, e de várias formas, ao não me contar que transava com ele, e só veio falar que estava grávida, para ficar do lado dela e eu fiquei, não a abandonei, mas ela sim me deixou com os destroços da bomba para trás. Logo depois ela se casou, não fomos ao casamento dela, nem eu, nem meu pai. Mas seis meses depois no casamento de uma prima meu pai a perdoou. E eu fiquei com as sequelas. Ela teve duas filhas lindas que amo de todo meu coração.
Quando ela se separou, dei minhas mãos a ela novamente, a trouxe para morar comigo, mas não deu certo. Ela foi morar em outra cidade e eu fiquei numa casa enorme que havia alugado para nós. Mandei mais da metade dos móveis que havia comprado para casa nova dela e desde então poucos nos falamos. Casou-se de novo. Fui ao seu casamento, só que a nossa relação degringolou de vez há três anos (história longa), foi quando desisti, parei de procurar, sofrer, chorar por ela. Se disser que não amo, mentirei, apenas não desejo mais contato. Desejo toda felicidade a ela e acima de tudo sucesso. Meu pai sempre me dá notícias sobre ela, mas nem chorar por ela não consegui mais. Edizneio, meu esposo disse, que se ela vier a falta sentirei remorsos. Não sei. Só na hora pra saber
Agora o irmão mais velho, o Eurípedes. Desde que nossa mãe nos deixou, virei seu saco de pancadas, ele me batia tanto, e batia em lugares que não deixavam roxos. E depois dizia a meu pai que eu estava mentindo, que nem havia me encostado. Na minha cabeça, o Eurípedes é aquela criança que não cresceu, não desenvolveu. Ele ficou lá atrás, quando nossa mãe nos largou. Ele foi trabalhar cedo, creio que para sair daquele inferno que a gente considerava lar. Era engraxate junto com o Jeremias.
Eu não entendia por que o Eurípedes me batia tanto e ficou pior com a ida dele para o exército. Ele parou de estudar na sexta série, tinha dificuldades com aprendizado também. Lembro que quando erámos pequenos, ainda com nossa mãe, ele teve um mal súbito, seguido por convulsões, lembro de minha carregando-o nos braços. Nunca soubemos o que ele realmente teve, nunca nos falaram e jamais perguntamos. Creio que isso o atrapalhou psicologicamente de diversas maneiras.
A última vez que o Eurípedes me bateu foi quando estava no exército. Deixou a roupa para que eu engomasse e passasse. Naquela época eu estudava, cuidava da minha avó esquizofrênica (ela sempre fugia e eu ia atrás/outra história a contar), era manicure, pois queria meu dinheiro, comprar minhas coisas, olhava o Zequinha, e ajudava a cuidar do pai da minha madrasta, que vivia doente. Lembro que estava fazendo café e meu irmão chegou perguntando pela roupa, e eu apenas respondi que estava no balde. Cara, já estava lá há três dias, nem preocupei. Minha avó havia fugido e estava mais por conta dela.
Só vi quando ele veio para cima de mim e começou a me dar socos nos seios. Era o local preferido dele para me bater, não deixava marcas. Daí ele pegou a panela de água quente e tacou em mim, quase pegou no meu rosto. Ele virou as costas, quebrei um tijolo nele. Quando voltou a si eu sabia que a coisa estava perdida. Então, puxei uma faca e disse a ele, que aquela era a última vez que ele me batia, pois ia matá-lo, sabia que iria parar na cadeia, mas nunca mais ele encostaria a mão em mim. Deus é bom, muito bom. Nossa vizinha dona Délia escutou a briga e foi parar lá em casa. Ela segurou minhas mãos, e chorando pediu que eu não fizesse aquilo, que me arrependeria. Nesse dia o Eurípedes saiu de casa e nunca mais voltou.
Ele foi morar com a nossa mãe, formou-se como soldado, teve filhos, separou, casou-se de novo, teve mais filhos, é avó. Odiei meu irmão por tanto tempo, pois ele aprontou outras comigo. Mas daí veio o Edinézio, a Elziane, esposa do meu irmão, e nos reaproximamos. Passei a enxergar meu irmão com os olhos da atual mulher dele. Pense uma pessoa que amo tanto, reaprendi a amar meu irmão a até a defendê-lo para o meu pai. E tud por causa dela.
Nunca desisti do Eurípedes ou deixei de ficar muito tempo sem conversar com ele, apenas não tenho muita paciência, como quando não tenho com uma criança, que repete uma coisa, uma arte, um mal feito por diversas vezes. Não tenho mais paciência para ensinar.
Quase nunca lembro seu aniversário, mas essa semana, lembrei o tempo todo, e nesta sexta 16 de abril, mandei logo uma mensagem, e finalizei dizendo que o amava pela primeira vez. O Eurípedes ama o aniversário dele, não me respondeu. Logo em seguida, falei com minha cunhada que me contou que ele estava com suspeita de Covid e internado e que estava internado. Desde então não paro de chorar, de pensar, de como ele pode ter sido o que mais sofreu com tudo pelo que passamos e todas as suas ações são reflexos dos traumas que passamos, assim como eu sou este reflexo.
Ou seja, a gente briga uma vida inteira com o irmão mais velho, que cansou de me bater, que não tem um pingo de juízo, que estava fazendo aniversário, mas estou quase morrendo de chorar porque está internado com suspeita de Covid e com dificuldades de respirar. Com medo de perder mais um irmão.
Quanto a minha mãe, antes de morrer, ela estava em coma, pedi perdão mesmo assim, e a perdoei. Nunca senti remorsos por ela, como diziam que eu iria sentir. Sempre a ajudei enquanto vida, financeiramente. E quando nos reaproximamos, eu já bem mais velha, deixei clara que se quisesse uma amiga sempre teria, mas nunca uma filha. E ela aceitou.
Quanto ao meu pai outro dia escrevo sobre ele.
